O que significa parto humanizado?

Parto Humanizado

O que significa parto humanizado?

Estes dias li um texto  chamado “O parto animalizado”. Fiquei curiosa com o título e corri para ler o que seria este tal “parto animalizado”. Fiquei muito triste com o texto, pois era uma crítica deselegante à assistência humanizada ao nascimento, dentro do parto humanizado. O escritor do texto não parecia entender sobre medicina baseada em evidências e sobre o que significa uma boa assistência ao parto. Sendo assim, ele entendia que a episiotomia era um procedimento necessário e protetor e não tinha conseguido entender o que uma mulher sente quando vive um parto em liberdade, sem intervenções tecnológicas. O questionamento era mais ou menos assim:
“Se a tecnologia trouxe tantos procedimentos e intervenções para o parto, por quê não utilizá-los?”

A essência humanizada do parto

Confesso que, pessoalmente, acho que o termo “parto humanizado” não consegue, por si só explicar tudo o que o BOM PARTO deve ser. É claro que, se somos seres humanos, todo parto já seria “humanizado”. Mas, o que os defensores do “parto humanizado” desejam para as mulheres no momento de receber seus bebês? Por que o tal “parto humanizado” não é “animalizado” e por que as intervenções tecnológicas não são sempre benéficas no momento do nascimento de um ser humano? Afinal, quais os benefícios para uma mulher grávida em buscar qualidade de cuidado para o seu parto?

Parto humanizado e intervenções médicas

Bem, qualidade de cuidado no parto não é sinônimo de intervenções médicas ou tecnológicas. E isto não é uma questão filosófica, é uma questão científica. Portanto, quanto menos intervenções no processo fisiológico do nascimento, melhores serão os resultados. A tecnologia médica é, claro, muito bem vinda, quando há doença no parto. Quando há riscos, quando há problemas. Para um parto que está ocorrendo perfeitamente, a tecnologia mais atrapalha do que ajuda. Isto nós, médicos, cientistas e tecnocráticos, temos que admitir: quanto mais nós intervimos desnecessariamente, maior o risco de complicações.

Parto humanizado é um evento biológico da mulher

O segundo fator importantíssimo é que o PARTO NÃO É UM EVENTO MÉDICO. Definitivamente, parto é um evento familiar. Sexual, social, biológico. Da mulher, do bebê, do casal. Portanto, acredito que é maravilhoso ser médico e poder estar presente neste momento (e é por isto que trabalhamos tão felizes ;->), mas temos que ter cuidado para não roubarmos o lugar deles, dos protagonistas do parto. Em terceiro lugar, o PARTO é um EVENTO ÚNICO na vida da mulher. É um momento marcante, uma janela que se abre poucas vezes na sua alma, no seu corpo, na sua sexualidade. Afinal, é por isso que muitas mulheres, quando vivem partos ditos “humanizados” e se sentem seguras e respeitadas neste momento, acabam se tornando radicalmente defensoras da  “causa pelo parto humanizado”. Por isto também é comum que mulheres, quando não são respeitadas durante seus partos, quando se sentem invadidas ou malcuidadas, quando sentem que o momento foi de sofrimento, passam a defender que o parto deveria se evitado, com a realização de cesarianas eletivas, ou abreviado, com procedimentos que diminuam sua duração e a percepção do parto pelo corpo feminino.

O que significa um parto humanizado

Passei mais da metade da minha vida pensando nisto: partos. Escolhi ser médica obstetra na infância. Portanto, estudei e me preparei por muitos anos e confesso que continuo aprendendo, sempre. Sendo assim, sei que partos podem adoecer, podem apresentar complicações e que a tecnologia obstétrica existe para melhorarmos os resultados para mãe e bebê. Que bom que existimos, que maravilhoso é ter médicos para dar mais segurança aos nascimentos! E que maravilhoso é assistir ao milagre da vida acontecer, tantas e tantas vezes, perfeitamente, sem necessidade da nossa intervenção.

Parto  humanizado é um parto seguro e consciente

Ter um “parto humanizado” é ter um parto SEGURO. É ter um parto CONSCIENTE. Se preparar para o “parto humanizado” é buscar informações. É entender sobre seu próprio corpo, é conectar-se com seu feminino, com seu instinto materno, é cercar-se de pessoas e profissionais que transmitem segurança. É escolher um local confortável para receber seu bebê. E nós, profissionais que defendemos o “parto humanizado” devemos estar sempre buscando entender melhor os dois lados: o lado da mulher, a fisiologia do nascimento — e o lado da medicina: a tecnologia de apoio. Pois só assim poderemos verdadeiramente apoiar uma família neste momento tão especial: a chegada de um filho.

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