O parto do Heitor, que foi um parto normal, começou dois anos antes, quando nasceu minha primeira filha, a Lavínia. Costumo dizer que ela não foi planejada, mas mais do que desejada. Quando soube da gravidez, fiquei um pouco insegura, com medo, enfim, tudo aquilo que a gente sente quando a coisa acontece de verdade. À época, eu fazia análise com uma excelente profissional, que passou todas as fases da gravidez comigo e meu ajudou a passar pelos momentos de incertezas.
Moro em Itabirito, uma cidade perto de Belo Horizonte, e resolvi fazer pré-natal na minha cidade mesmo. Marquei consulta com o médico mais famoso da cidade e fui a todas as consultas. Até aquele momento, nunca havia passado pela minha cabeça ter uma cesariana. Para mim, na verdade, esta seria uma cirurgia realizada apenas e tão somente em casos de real necessidade. Eu eu teria parto normal e ponto.
Eu não sabia da luta pela humanização do parto normal. Apesar de a minha analista tentar dizer isso pra mim várias vezes eu apenas não conseguia escutar. E foi assim que caí numa cesárea desnecessária, que me trouxe muito sofrimento. Posso dizer que aquela cesariana foi uma das maiores angústias da minha vida.
Uma cesariana é chamada de desnecessária quando é realizada sem indicações clínicas evidentes, apenas por conveniência ou por desejo da gestante ou do profissional que cuida dela.
Como eu havia parado de trabalhar, quando a Lavínia completou um ano, decidimos engravidar novamente. Procurei um médico humanizado. Falamos sobre nossas pretensões de engravidar novamente, buscar um parto natural (porque a ideia de uma parto normal, pra falar a verdade, nunca iria me satisfazer) e deixar com que apenas a natureza agisse. De imediato, ele já abriu um belo sorriso e disse que isso era ótimo, que era muito bom encontrar mulheres que pensavam como eles.
No mês seguinte, já estava grávida. E assim começamos o pré-natal. Todo mês saíamos de Itabirito e íamos a Belo Horizonte: eu, meu marido e minha filha, para as consultas de pré-natal. E durante esse tempo, eu me enchi de informações. Li todos os livros, participei de grupos de discussões na internet, tirei todas as minhas dúvidas. Costumava dizer: “Neste parto ninguém vai pôr a mão em mim”. E foi mais ou menos assim mesmo!
No dia em que fiz trinta e nove semanas, já sentindo os pródromos do trabalho de parto há muitos dias e super ansiosa, morrendo de medo de cair em outra cesárea, por volta de uma e meia da manhã acordei com uma dor forte. Fui até o quarto da Lavínia, falei com meu marido e fui tomar um banho, pra ver se passava. Só ficava mais forte. Como já estava tudo dentro do carro, e minha cunhada estava em casa, falei com meu marido para irmos, que ela cuidaria da Lavínia e que eu ligaria para minha mãe para ela vir. Eu disse para ele que iríamos direto para o hospital, porque estava sentindo muita dor e as contrações já vinham de cinco em cinco minutos.
Pródromos do trabalho de parto são sinais que acontecem antes do início da fase ativa, ou seja, do trabalho do parto normal propriamente dito. São contrações indolores ou pouco dolorosas, com espaço grande entre elas, além de sensação de peso em baixo ventre.
Ele concordou e fomos. Havíamos feito o curso de preparação para o parto normal e ouvimos muito a frase “trabalho de parto demora”, então ele não se preocupou em chegar depressa. Eu não “falava um pio”, apenas me entregava a cada contração dentro do carro.
Chegamos no pronto socorro do hospital. Quando meu marido abriu a porta para que eu saísse, me levantei e desceu um liquido por minhas pernas. Pensei: “opa, fiz xixi na calça”. Mas na verdade, era a bolsa que havia rompido. Aí ficou hard core mesmo. As dores aumentaram catastroficamente, e eu gritava a cada contração (o que levava metade da dor embora, para dizer a verdade).
Dentro do útero o bebê fica envolvido pelo líquido amniótico, dentro de uma película bem fina, uma membrana chamada de bolsa amniótica, ou bolsa das águas. A rotura espontânea das membranas que envolvem o bebê se evidencia quando uma grande quantidade de líquido escorre pela vagina. O líquido é claro, que e tem cheiro de água sanitária. Na maioria dos partos isto acontecerá naturalmente, durante o processo do trabalho de parto normal ou antes de o trabalho de parto começar.
Subimos para nos encontrar com a Dra. Quésia, que estava acompanhando outra parturiente. Ela me recebeu amavelmente, e numa voz muito baixa, perguntou pelo plano de parto. A essa hora, já estava tudo confuso, porque eu estava muito concentrada no meu corpo, nem vi o que acontecia à minha volta. Ela me examinou e me disse que eu estava com 9 centímetros. Eu não acreditava. Eu queria suíte PPP, queria música, queria banheira, queria doula, queria comer…Nada foi como eu sonhei, mas, do fundo do meu coração… foi muito melhor.
Plano de parto é um documento onde a mulher grávida escreve suas preferências para o momento do parto. Detalhes sobre quais tipos de intervenções deseja ter, quais métodos deseja utilizar para o alívio da dor e quem serão seus acompanhantes são escritos no plano de parto, além de outras informações sobre cuidados com o bebê, local do nascimento e equipe que irá prestar a assistência.
Suíte PPP é um quarto especialmente preparado para que a mulher passe os três estágios do trabalho de parto: pré-parto (fase de dilatação), parto (nascimento) e puerpério imediato (primeira hora após o nascimento). É um quarto confortável, com acessórios que permitem que a mulher tenha alívio da dor, como: bola de pilates, banheira, chuveiro morno, cromoterapia, musicoterapia, etc.
Mesmo estando no bloco cirúrgico a equipe diminuiu as luzes e colocou uma música bem relaxante. A doula me disse: “Tente ficar de quatro apoios para liberar a tensão nas suas costas“. Eu concordei e nem saí daquela posição mais. A Dra. Quésia apenas me perguntou para confirmar o que estava em meu plano de parto: “você deseja um parto normal sem intervenções”? Eu respondi: “sem intervenções”. Ela ainda perguntou se eu queria fotos, pois a Paula fotógrafa estava no hospital. Eu concordei com um aceno e ela veio para tirar fotos de meu parto.
A posição de quatro apoios, também chamada como posição inglesa ou posição de Gaskin (em homenagem à parteira inglesa Ina May Gaskin) é uma posição possível para o momento do nascimento do bebê, escolhida por muitas mulheres por se sentirem mais confortáveis na hora dos puxos.
Com pouco tempo, senti a cabeça do Heitor já saindo e perguntei pelo meu marido, de quem eu nem tinha dado falta até então. Ele ainda não havia chegado, estava providenciando minha internação no andar de baixo do hospital. Senti outra contração e a cabeça saiu. Eu a segurei e foi uma sensação única: era quentinha, macia. Nesse meio tempo meu marido chegou e o Heitor terminou de nascer. Eu o segurei e trouxe para o meu colo. Quando parou de pulsar, cortei o cordão, e ficamos juntinhos, abraçadinhos. Ele mamou e apenas depois disto foi examinado pela pediatra. Não foi aspirado, nem esfregado. Não recebeu colírio nos olhos e quase não chorou.
Qual o melhor momento para cortar o cordão? Apesar de muitas vezes o cordão ser cortado imediatamente após o nascimento do bebê, esta prática não é a mais recomendada. Quando o corte do cordão é feito tardiamente, aguardando-se ao menos 1 a 3 minutos, o bebê recebe maior aporte de sangue da placenta e tem melhores índices sanguíneos durante seu primeiro ano de vida, correndo menos risco de ter anemia.
Ao nascer o bebê saudável deve ir imediatamente para o colo da sua mãe, estabelecendo com ela um contato pele-a-pele. Este contato tem inúmeros benefícios, como formação da flora bacteriana do bebê, controle de temperatura, ajustes de frequência cardíaca e respiratória, melhor vínculo e mais sucesso na amamentação. Por pelo menos uma hora (chamada de “golden-hour” ou hora de ouro) o bebê deve permanecer assim, juntinho com sua mãe, sem que sejam realizados exames ou interferências.
O colírio de antibiótico é colocado rotineiramente nos olhos dos bebês para diminuir o risco de que eles tenham a conjuntivite neonatal. Entretanto, além de ser desconfortável (alguns tipos causam ardência nos olhos) o próprio colírio pode causar conjuntivite química. Por isto muitas mulheres têm optado por não fazer uso do colírio em seus recém-nascidos.
Todo bebê tem que chorar quando nasce? Apesar de muita gente pensar que o bebê só está bem e saudável quando chora ao nascer, isto não é verdade. Para estar bem oxigenado precisa apenas respirar, não necessariamente chorar. Por isto, logo ao nascer o bebê é observado e quando ele está respirando entende-se que ele está recebendo aporte de oxigênio, mesmo se ele não tenha chorado.
Eu não acreditava que parir poderia ser tão fácil, tão incrível, tão transformador… Eu, em êxtase, gritava: “Meu Deus, como é fácil, eu consegui! Como eu deixei que tirassem isso de mim, como podem tirar isso da gente”! (Falava isto lembrando do parto da Lavínea, uma cesariana desnecessária). Eu chorava, eu ria, eu beijava minha cria. Foi incrível. Fiquei cerca de uma semana meio “chapada” pela ocitocina.
Ocitocina é o hormônio que promove o parto normal, estimulando as contrações do útero e a sua abertura para a vagina. É conhecido também como o hormônio do amor, pois é responsável pelo vínculo mãe-bebê que se estabelece a partir do nascimento. Juntamente com as endorfinas, é responsável pela sensação de prazer que a mulher sente logo após o nascimento do bebê.
De nossa chegada ao hospital ao nascimento de Heitor, passaram-se somente 40 minutos, ele nasceu após apenas três horas de trabalho de parto.
A dor é pessoal. Doeu. Mas não acho que doeu tanto assim. Quando pensei em uma anestesia ele já estava para nascer, então abandonei essa ideia.
A anestesia realizada para o parto normal é chamada de analgesia, pois tem o objetivo de diminuir a sensação dolorosa sem causar bloqueio motor, ou seja, sem impedir que a mulher possa mover as pernas e caminhar durante o trabalho de parto. É feita através da injeção de medicamentos no espaço peridural ou raquidiano. Um cateter pode ser inserido no espaço peridural para que novas doses de medicamentos anestésicos possam ser infundidos de acordo com a necessidade da mulher, pois o trabalho de parto normal pode demorar muitas horas.
Esse foi o meu VBAC. Foi lindo, transformador, empoderador mesmo. Agradeço de coração à equipe que faz o que faz com carinho. E a meu marido, claro, que nunca duvidou de minha capacidade de parir.
VBAC = Vaginal Birth After Cesarean = Parto normal após cesariana. Termo utilizado para referir a um parto normal que acontece em uma mulher que já teve uma cesariana prévia.