Fernanda e Miguel: um bebê com trissomia do 18 que nasceu em parto na água

Fernanda e Miguel: um bebê com trissomia do 18 que nasceu em parto na água

Durante a infância é comum nos perguntarem o que queremos ser quando crescermos e eu sempre respondia: professora e mãe. Ser mãe sempre foi meu maior sonho e minha paixão por crianças não é novidade para quem me conhece.

No dia 12/03/2017 descobri que estava grávida após fazer 3 testes de farmácia, devido ao atraso da menstruação. Sonhava com esse dia, mas apesar da felicidade, senti medo e preocupação. Não sabia porque, mas algo me travava. Não conseguia comprar nada para meu bebê. Não queria ir em lojas de crianças e nem de gestantes. Sentia um misto de alegria e ansiedade, como toda mãe de primeira viagem, mas existia alguma sensação estranha. O primeiro ultrassom correu bem.

O primeiro ultrassom deve ser realizado preferencialmente no primeiro trimestre. Através dele é possível conferir a idade da gestação, a vitalidade do embrião (através da frequência dos batimentos cardíacos), o local de implantação do embrião (se a gravidez se instalou corretamente dentro do útero) e a quantidade de embriões (se é um só ou se são gêmeos) Estávamos com 6 semanas de gestação.

Ouvimos o coraçãozinho bater forte. Tudo normal e mesmo assim eu ainda andava inquieta. Quando completamos 12 semanas fizemos o ultrassom de translucência nucal.

A medida da translucência nucal, realizada através de um exame de ultrassom, entre 11 e 14 semanas de gravidez, é um marcador de anomalias fetais. Esta medida, associada a outros marcadores que são medidos durante o exame, é utilizada, junto com outros dados da história do casal, para fazer um cálculo do risco de que aquele feto tenha algum tipo de anomalia, como cromossomopatias e cardiopatias. As cromossomopatias mais comuns são a trissomia do 21 (Síndrome de Down), a trissomia do 13 (Síndrome de Patau) e a trissomia do 18 (Síndrome de Edwards).

Pesquisei muito sobre esse exame e estava tensa! Roger me buscou no trabalho e fomos até o médico sem trocar uma palavra. Durante o exame o médico ficou transtornado, falou que precisaria entrar em contato com minha obstetra imediatamente porque existiam algumas alterações consideráveis no feto. Desci para o consultório da médica e ela sugeriu que procurássemos um especialista: um fetólogo.

Fetólogo é um médico especialista em medicina fetal. Ajuda o médico obstetra no diagnóstico e acompanhamento de gestações em que o feto apresenta alguma anomalia morfológica, genética, cromossômica ou de desenvolvimento.

Nesse dia me desesperei e fiquei sem chão pela primeira vez. No dia seguinte fomos ao fetólogo após uma noite de muito choro e orações. Ele fez um ultrassom com duas horas de duração. Analisou cada órgão do meu bebezinho. Ficamos ali vendo-o se mexer, pular, parecia tão saudável. Ao final da consulta ele nos informou que por tudo que tinha visto e por sua experiência, achava que nosso bebê tinha Síndrome de Edwards, que era incompatível com a vida. Disse que para confirmar seria necessária uma punção no líquido amniótico, que foi feita imediatamente.

A punção do líquido amniótico, ou amniocentese, é um exame realizado para que se tenha uma amostra do líquido amniótico, onde são encontradas células fetais ou de algum outro microorganismo que tenha infectado o feto. Para diagnóstico de doenças genéticas, através da amniocentese são isoladas células fetais e é realizado o estudo do material genético do feto, possibilitando o diagnóstico de cromossomopatias, como a Síndrome de Edwards.

Em 10 dias teríamos o resultado, mas a segurança do médico era tanta que eu já saí dali com a certeza de que era aquilo mesmo. As palavras dele ecoavam em meus ouvidos. Informou que 90% dos bebês portadores da síndrome de Edwards iam a óbito antes de nascer, 9% durante o parto e 1% com poucas horas de vida. A partir dali comecei a pesquisar sobre a trissomia do cromossomo 18 (T18) e meu chão sumiu pela segunda vez.

E aí? O que deveria fazer? Como lidar com isso? Como aguentaria ficar 9 meses grávida para depois perder meu filho? Porque comigo? O que eu tinha feito de errado? Socorro!

Foram dias de dor, de dúvidas, questionamentos, medo, tristeza! Até que Deus me mostrou mais uma vez sua força, seu milagre, me amparou e me mostrou que o amor é maior que tudo. Percebi que eu poderia sim ter uma gravidez feliz! Percebi que meus momentos com meu bebê seriam únicos, lindos, que enfrentaríamos tudo juntos, até que chegasse o momento da despedida. Resolvi entregar meu corpo, minha alma, meu amor, meu tempo, minha vida para meu filho enquanto ele precisasse! Assim como ele me escolheu como mãe eu o escolhi como filho e a partir daquele momento faria do nosso relacionamento um caso de amor eterno.

Veio o diagnóstico. Confirmada a síndrome e o sexo. Era um menino, MIGUEL! Meu anjo, meu príncipe. Meu coração já me dizia que era um menino e essa confirmação estreitou ainda mais nossos laços. Me fez sentir mãe de verdade. Me fez ver que minha intuição e meus instintos nos aproximavam ainda mais. Nesse dia chorei muito, meu coração doeu demais por saber que perderia meu menino. Mas também me fez ter certeza de que tudo o que estava acontecendo conosco era uma oportunidade que Deus tinha nos dado para aprender que o amor é maior que a vida e que nossos desejos e vontades não vão acontecer sempre. Aprendi a ser feliz com as dores que a vida trás e a enfrentar com alegria e fé suas batalhas.

Nesse período uma vizinha me indicou o livro da Dra.Quésia Villamil, “Os últimos quatro meses: diário da gravidez de um bebê com anencefalia”. No livro ela conta a história da Esther, sua estrelinha que tinha anencefalia e não sobreviveu após o parto. Esse livro me transformou, me iluminou e me fez querer conhecer aquela mulher imediatamente. Naquele momento comecei a pensar sobre o parto. Que tipo de parto eu queria? Tinha tantas dúvidas e minha obstetra anterior, apesar de excelente médica, não tinha muita abertura para falar sobre parto humanizado. Mas será que Miguel resistiria ao parto normal? Será que se fizesse uma cesariana teria oportunidade de carregar meu filho? Pesquisei pela Quésia na internet, mandei um e-mail, ela respondeu e sugeriu que eu agendasse uma consulta. Assim começou a segunda parte dessa nossa história linda!

Parto humanizado, equipe multidisciplinar, empoderamento feminino, parto natural, doula!! Um mundo novo se abriu para mim e passei a ter certeza absoluta que estava no lugar certo. Ali me encontrei! Com aquela médica, naquele instituto, aquela equipe, a Lena (doula), a doce Adrinez (enfermeira obstetra), rodeada de informações, de carinho, de atenção. Não era só uma consulta de pré-natal, era um encontro, era um bate papo, era aprendizado, união, era só coisa boa!

Doula é um termo grego que significa: mulher que serve. São mulheres que acolhem e acompanham mulheres grávidas e as auxiliam no preparo para o parto, o aleitamento materno e os cuidados com o bebê. Ajudam na composição do plano de parto e prestam auxílio com o alívio da dor no momento do nascimento.

Enfermeiras obstetras e obstetrizes são profissionais especializadas no cuidado à mulher durante a gestação, no momento do parto e após o parto. Trabalham em equipe com médicos e doulas para garantir uma assistência integral e respeitosa à mulher e ao bebê.

O tempo foi passando, o líquido amniótico aumentado e junto com isto a expectativa que a gestação não chegasse ao termo. Cada semana era uma vitória, pois Miguel apresentava muitos problemas morfológicos. Mas juntos fomos seguindo com amor, alegria e muita informação!

Gestação no termo significa que o bebê já está maduro para nascer e não é mais prematuro. O “termo” vide-se em dois subperíodos: termo precoce e termo completo. O termo precoce é o período entre 37 a 39 semanas. Entre 39 e 42 semanas é o período de termo completo e após 42 semanas a gestação é considerada pós termo.

Com aquela equipe aprendi sobre preparação para o parto, recebi vídeos, textos, cursos e assim pude fazer MINHAS escolhas! Pude planejar o parto exatamente como queríamos, tudo documentado no Plano de Parto.

Mas nada do Miguel nascer! Ele curtia muito a barriga da mamãe e os carinhos e conversas do papai. Nossa gestação durou 42 semanas e 3 dias. As últimas semanas foram tensas. O cansaço era grande, não dormia mais, não tinha posição na cama, e a ansiedade aumentava. Como seria nosso encontro? Eu pedia a Deus que se fosse feita a Sua vontade, mas que eu pudesse olhar nos olhos do meu menino por um segundo que fosse. Às vezes ele ficava algumas horas sem se mexer e eu sofria com receio de que ele tivesse partido. Mas a Dra.Quésia me acalmou e me mostrou a importância de esperar que o Miguel decidisse a hora certa de vir ao mundo. Eu queria viver um parto totalmente natural por receio que o Miguel não resistisse a intervenções.

No dia 06/12/17 acordei às 01:30h com uma contração mais forte. Fui ao banheiro, pensando que poderia ser a bexiga cheia e voltei para cama. Mas a cada dez minutos outra contração dolorida vinha, o que não era comum durante a noite. Não conseguia mais dormir e comecei a anotar os intervalos. Miguel estava chegando! As dores aumentavam e por volta das 3 da manhã mandei mensagem para a Lena. Ela me orientou a entrar no chuveiro, relaxar e observar. Fiquei ali por aproximadamente uma hora, rezando e me despedindo da barriga.

Às 09:00h cheguei a maternidade, sentindo contrações com intervalo de 3 minutos e muita dor. A equipe já me esperava na porta e logo subi para a suíte de parto. Estava com quatro centímetros de dilatação e corri para o chuveiro, em busca de conforto. Nesse momento a Lena foi minha salvadora.

Massagens, música, palavras de carinho, incentivo. Ali fiquei por duas horas revezando entre a bola de pilates, as barras na parede e o chão. Agachava no chão, rezava, pedia a Deus forças para enfrentar aquelas contrações que só quem sente entende.

Lembro que a Quésia e a Adrinez falavam comigo sobre romper a bolsa, preocupadas que o trabalho de parto demorasse muito e eu ficasse cansada, mas eu não conseguia responder. A tal partolândia, que as meninas tanto falavam no grupo de doulandas (vale ressaltar quanta coisa aprendi nesse grupo de mulheres maravilhosas e o quanto somos fortes juntas) já estava instalada. Eu não via nada ao meu redor, apenas me concentrava no que acontecia com meu corpo e buscava posições para amenizar a dor.

A amniotomia, ou rotura da bolsa de águas que protege o bebê dentro do útero, é um procedimento realizado durante o trabalho de parto para acelerar sua evolução. Não deve ser realizado de rotina em um trabalho de parto que tem evolução fisiológica, mas quando há parada de progressão do trabalho de parto é uma intervenção efetiva.

Doulandas são as mulheres, grávidas ou mães, que foram ou serão cuidadas por uma doula específica. É comum se referir a uma mulher como “doulanda da doula x”, quando se deseja relacioná-la a sua doula.

Partolândia é um termo utilizado para explicar o estado mental e emocional em que fica a mulher na fase ativa do trabalho de parto. As mulheres costumam relatar que sentem como se tivessem saído do mundo real, como se estivessem em um mundo paralelo, com sensações bem específicas num estado de consciência alterado, que é comum a todas as mulheres que passam pela experiência. “Ir para a partolândia” é se entregar ao parto, se conectar com seu corpo, com seu instinto, com seu feminino, com sua capacidade de parir. É desconectar do racional, do presente, do material e deixar os hormônios do parto inundarem a mente e o corpo para que o parto aconteça naturalmente.

Aí resolvi ir para a banheira, onde fiquei mais umas duas horas. Ali me lembrei de tudo que havia estudado sobre o parto natural. Lembrava dos áudios de Hypnobirthing, lembrava das respirações, visualizava meu bebê passando pelo canal de parto e lembrei também do parto orgásmico. Nesse momento as dores mudaram. Não era mais a dor da contração, era a queimação do canal vaginal e muita vontade de fazer força na hora das contrações. Em minha cabeça as palavras da Quésia e da Lena se repetiam: seu corpo sabe parir, você não precisa fazer nada, seu bebê sabe o que fazer, acredite em seus instintos.

A Lena dizia que já estava acabando e isso me aliviava muito. Até que, em um dado momento a Adrinez me disse para colocar a mão e sentir a cabeça do Miguel chegando, e eu senti! Era mágico! Nesse momento a concentração foi total! Virei para a parede para que nada me distraísse. Me conectei com meu corpo e com meu filho. Me apoiei no Roger, que a todo momento estava ali ao meu lado e chamei: vem filho!

E então, de repente, quando veio a contração, senti muita ardência no canal vaginal, muita vontade de fazer força e a cabecinha dele saiu! Eu gritei: a cabeça saiu, ele está mexendo! Esse foi o momento mais incrível da minha vida. Senti meu filho se virando, se preparando para sair do meu corpo, esperei, até que a próxima contração viesse e quando veio ele saiu! E gritei novamente: alguém pega ele! Uma voz suave me disse: pegue ele!

E então eu peguei. Peguei meu filho nos braços. Ele me olhava com uma força tão grande, com uma luz tão forte que nunca vou esquecer. Conseguimos filho! Meu guerreiro, que contra todas as estatísticas nasceu vivo. Apesar de não conseguir chorar, gemia baixinho. Olhou para o papai, para a vovó, para as titias e depois para toda a família que veio conhecê-lo.

Miguel viveu por quase duas horas. Devagar ele foi partindo sereno como um anjo. Eu disse: vai filho, pode ir tranquilo, obrigada por tudo, te amo muito! Oramos, choramos, beijei-o muito, vesti a roupinha nele, apreciei cada detalhe daquele corpinho tão perfeito e me despedi.

Às 17:30h a funerária veio buscá-lo e eu fui para casa. Com a mesma roupa que cheguei à maternidade, saí. Com os braços e a barriga vazios, mas o coração cheio de amor e gratidão.

Quésia leu para nós uma cartinha linda que a Rebeca (sua filha recém-nascida que estava com 30 dias de vida) tinha escrito para a Esther (sua primeira filha, que teve anencefalia e, assim como o Miguel, tinha morrido logo após o nascimento), contando para a ela que o Miguel estava indo encontrá-la.

Anencefalia é uma malformação em que o feto não tem a maior parte do cérebro. Assim como a Síndrome de Edwards, a maioria dos bebês com anencefalia morre dentro do útero, durante o parto ou logo após o nascimento.

Nessa hora fui surpreendida pelo amor e pela ternura que transformam um momento de tanta dor em um momento de felicidade e esperança. Sou extremamente grata à Dra. Quésia e toda a sua equipe, por terem me ajudado a transformar meu sonho em realidade.

Hoje me sinto muito feliz e muito realizada com nossa história. Tenho orgulho de compartilhá-la com todos e descobri que parir é uma das coisas mais maravilhosas do mundo. Pretendo ter mais filhos e se Deus permitir todos de parto natural!

Miguel me fez mãe, me fez capaz. Me mostrou um amor e uma admiração pela minha mãe que eu não via. Mas fez mais, me mostrou que Deus sabe de tudo e que por mais difícil que seja lidar com a perda, os momentos que vivi são suficientes para me fazer feliz e dizer que eu viveria tudo de novo, mil vezes, se fosse preciso.

Te amo filho e te sinto presente sempre! Obrigada por ter me escolhido e feito de mim uma mãe feliz e apaixonada.

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