A gravidez
Tudo começou em 1999 no show do Charlie Brown. Conheci e me apaixonei pela pessoa mais surpreendente desse mundo: o “Gato”. Quando aceitamos que tudo ocorreria no momento certo e começamos a nos dedicar a outros projetos com total atenção, eis que surge o resultado positivo.
Logo que descobrimos fomos ao meu ginecologista, já era paciente dele há aproximadamente sete anos. Foi uma recepção calorosa e carinhosa, como sempre. Assim que terminaram os exames fomos conversar sobre o pré-natal. De repente houve uma transformação: o clima da sala ficou tenso e o tom de voz do doutor mudou completamente. Primeiro ele questionou o meu baixo peso. Depois deixou explícito que gravidez era como uma doença gravíssima ainda me disse que ainda não era o momento de pensar em como seria o parto.
Eu estava com sete semanas de gestação. Pegamos todas as solicitações de exames e fomos para casa com um sensação horrível. Me senti uma péssima mãe. Eu e o Gato conversamos muito. Meu médico era uma pessoa muito respeitada e tinha até feito o parto da minha cunhada. Contudo, não estava rolando uma química bacana.
Comentei com uma amiga sobre essa situação e ela me indicou outros profissionais. Foi então que cheguei até a Dra. Quésia.
Mudando de obstetra
Minha primeira consulta com ela foi amor à primeira vista: “Como assim, aquela médica quase da minha altura com carinha de menina seria a minha obstetra?” Mas rolou uma sintonia e uma energia boa. A cada consulta a relação ia se estreitando e me sentia mais íntima. Foram muitas e muitas risadas, porque coisas bizarras sempre aconteciam comigo.
Confiamos em cada palavra, em todos os exames e em todas as decisões. Retomei as minhas atividades físicas: pilates três vezes na semana e ioga duas vezes. Estava um pouco desarmonizada e ioga foi essencial para reencontrar o meu equilíbrio, descobrir a minha natureza de fêmea, conectar com minha filha e aceitar a dor como um processo natural.
Tive uma gestação tranquila, com poucas intercorrências. Somente no sexto para sétimo mês tivemos um susto porque a Manu estava ganhando pouquíssimo peso e teve uma queda considerável no percentil de crescimento.
A Dra. Quésia optou por monitorarmos o crescimento da Manu através de ultrassons realizados de 15 em 15 dias. Com o passar do tempo ela foi ganhando peso e se desenvolvendo normalmente.
Estreptococos positivo
Descobrimos que eu tinha estreptococos positivo, fiquei arrasada. Senti-me extremamente culpada, porque tive uma gestação até então super tranquila sem necessidade de tomar qualquer tipo de medicação. Nada nadinha mesmo. E bem no parto, teria que tomar antibiótico. Estudei sobre o assunto e conscientizei que não era minha “culpa” ter a bendita bactéria. Tomar o antibiótico preservaria a saúde da minha filha. Intimamente roguei a Deus para ela nascer empelicada, com a bolsa íntegra.
Uma em cada 4 mulheres tem o exame de estreptococos positivo. Isto significa que são portadoras desta bactéria no intestino e na vagina. Bebês nascidos de parto normal cujas mães são portadoras desta bactéria têm maior chance de ter infecção ao nascimento, por isto recomenda-se o uso de antibiótico durante o trabalho de parto.
Empelicado é o termo usado para descrever bebês que nascem dentro da bolsa das águas, ou seja a bolsa amniótica, que se parece com uma “película”. Este é um evento raro, pois durante o trabalho de parto a maioria das bolsas amnióticas acaba se rompendo espontaneamente. Apenas um em cada 80 mil recém-nascidos nasce empelicado.
Ansiedade
O tempo foi passando e a ansiedade de ter Manuzinha nos braços só aumentava. A partir de trinta e sete semanas de gestação o Gato começou a fazer massagem em mim para relaxamento do períneo (só de lembrar dos comentários dele…me dá crise de risos) porque tem coisas que ninguém comenta sobre a gravidez.
A massagem perineal é realizada para diminuir a chance de laceração durante o parto. Deve ser iniciada a partir de trinta e quatro semanas de gestação, pela própria gestante, pelo parceiro ou pelo profissional de fisioterapia.
Enfim chegamos na quadragésima semana de gestação e fui fazer um exame de ultrassom. A ultrassonografista ficou apreensiva com o exame, pois este demonstrou que nas últimas duas semanas a Manu não tinha ganhado peso e não havia crescido.
Momento de preocupação
Mesmo que a médica tenha tentado me tranquilizar, naquela hora comecei a me preocupar. Saindo do exame de ultrassom fui me encontrar com Dra. Quésia. Neste trajeto chorei, pois meu coração ficou apertado. O Gato, entretanto, estava confiante, falando que não era nada demais e que tudo daria certo.
Na consulta descobrimos que já estava com quatro centímetros de dilatação, mesmo eu não sentindo dor e nem incômodo algum. O meu corpo estava funcionando no seu tempo, de forma lenta e gradual, porém, como a Manu não tinha ganhado peso, havia a dúvida se seria prudente esperar. E também não sabíamos se quando o meu organismo desencadeasse o trabalho de parto Manu suportaria um parto normal. Bateu um desespero, chorei, lamentei e conversei bastante com o Gato. Optamos por fazer uma manobra para estimular o início do trabalho de parto e aguardar mais um pouco.
Então fomos assistir ao filme “SOS Mulheres ao Mar”, que estreava naquele dia. Rimos muito e de repente comecei a sentir contrações. Fiquei mega empolgada, saímos do cinema e eu já estava com muita dor. Quando chegamos no hotel mal conseguia sair do carro, só que com um sorriso no rosto. Comentava com todos os funcionários que estava tendo contrações e que estava em trabalho de parto, toda orgulhosa. Fiquei super confiante e acreditando que daquela madrugada não passava. Manu iria nascer!
Fui dormir para descansar já que imaginava que iria passar a madrugada parindo. Só que acordei sem dor, sem contração e sem sorriso…
3 Hots para entrar em trabalho de parto
Procurei no google como acelerar o trabalho de parto e descobri os “três hots”: água quente, sexo quente e comida quente/apimentada. Fui para o chuveiro fazer o primeiro hot. Nada de as contrações voltarem. Tentei acordar o Gato para um namoro quente, só que não rolou. Até beliscar o bico do peito belisquei (li que ajudava a liberar ocitocina), quase acabei com eles e nada das contrações voltarem.
Por volta de cinco horas da manhã rezei e entreguei nas mãos de Deus. Conversei com meus médicos e optamos pela indução do parto. No fundo fiquei triste, quase que desesperada, eu não tinha sonhado assim, não um parto induzido. E ainda mais naquele hospital para onde eu iria, pois era o único que tinha vagas naquele dia.
Foi então que o universo me chamou para a responsabilidade e concluí que quando a gente quer ter um filho nem sempre as coisas acontecem exatamente como o planejado. Depois de muita conversa e choro resolvi me posicionar: rezei, me levantei, tomei banho e coloquei a roupa reservada para o grande dia. Me maquiei, subi no salto da minha confiança, do meu empoderamento, do meu eu mulher e fui para o hospital.
No caminho recebi uma linda mensagem da Dra. Quésia o que me deixou ainda mais confiante, amada e segura. Lá chegando minha doula Lena me esperava cheia de aconchego e estímulo. No quarto já todo preparado com luminosidade, música, essência de lavanda, bola de pilates e tecidos recebi a continuidade daquele primeiro abraço e foi assim: olho no olho, energias trocadas, energias harmonizadas.
Minha mente estava apta, meu emocional estava pronto, meu espírito estava preparado e só faltava o meu corpo agir e reagir.
Indução do parto
Iniciamos fazendo o acesso venoso para o antibiótico e a indução do parto com o medicamento ocitocina. E assim se passaram quase quatro horas de indução e muita massagem, conversas e músicas.
Eu não sentia dor ou contração forte. Depois de um exame de toque foi constatado que não houve progresso na dilatação então poderia ser necessário romper a bolsa para estimular a progressão do trabalho de parto. Mas isso eu não queria, não mesmo, de jeito nenhum.
Olhei para a ferramenta que é utilizada para o procedimento de rotura das membranas e entrei em desespero. Sentia meu coração pulsar forte. Me lembrava dos meus estudos e sabia que se rompêssemos a bolsa e a Manu demorasse a nascer poderia ter que recorrer a uma intervenção cirúrgica. E isso eu não queria de forma alguma. Então combinamos de aguardar mais uma hora antes de rompermos a bolsa.
Neste momento eu mergulhei no meu íntimo. Recorri à minha essência e simplesmente me desliguei do externo. Meu útero reagiu e dilatou dois centímetros. Pronto! Foi dada a largada e o meu corpo se despertou para reagir, contrair, murmurar, urrar, amar, entregar, andar, perambular, rebolar, agachar, evacuar, urinar, contorcer, rir, chorar, lamentar e arrepiar. Foram várias horas de relógio, mas eu não tive percepção do total deste tempo.
No começo as contrações vinham com dores mais localizadas no ventre, depois nas costas e de repente a dor estava em todo lugar. Ficar deitada não era legal, o melhor era ficar sentada na bola, andando e parando a cada contração.
Momento de desespero
Quando o trabalho de parto avançou senti um certo desespero. Olhei para a janela do quarto e vi tudo escuro lá fora. Estava tudo muito quieto do lado de fora e tudo muito intenso do meu lado de dentro. Era uma dor enlouquecedora, calafrios seguidos de extrema sudorese.
Eu necessitava do contato do Gato, não queria ele longe de jeito algum. Queria sua mão me tocando, precisava do seu calor e da sua energia. Ele se entregou ao nosso sonho, demonstrando a sua firmeza, sua serenidade, sua cumplicidade e sua fortaleza.
A dilatação final foi bem dolorida. Eu tinha a sensação que iria me dividir, literalmente partir em duas. Estava exausta, cansada de tudo. Fiquei deitada lateralmente e quando as contrações vinham, a Lena e o Gato apoiavam as minhas pernas.
Já descansada voltei para o chuveiro e lá comecei a sentir uma força me puxando para baixo a cada contração. A princípio fazia força ao contrário, chegava a ficar nas pontas dos pés. A Lena me orientou que a cada contração eu me abaixasse e lá ia ela junto. Subíamos e descíamos, olho no olho, respiração com respiração.
Novo ânimo
Nessa hora entrou a Dra. Quésia, o que me deu um novo ânimo. Olhar para seu rosto me revitalizou. Ela me incentivou a abrir a boca e urrar a cada contração. Obedeci com muito prazer, com muita força e com muito grito. Olhei em volta e vi um banheiro com luz verde, escutei um mantra e mergulhei naqueles olhares tão encorajadores.
Conduzida ao quarto me deparei com um ambiente iluminado em tonalidade azul, com uma música ao fundo e velas. Então tive a certeza que meu sonho estava se realizando.
Me deitei na cama e abracei o colchão agarrada nas mãos da Dra. Quesia. A cada segundinho de alívio recebia o carinho, o aconchego, um beijinho, uma palavrinha de estímulo. E foi naquela posição que experimentei a dor mais aguda, mais incalculável. Senti a rotação da Manu para o perfeito encaixe, tive a sensação que estava sendo revirada ao avesso. Vomitei de dor e fiz força, muita força e escutei o famoso “ploc” banhando-me de uma água quentinha: a bolsa estourou.
Depois disto houve uma alteração de sensação: agora a cada contração eu queria fazer força de expulsão, de libertação. Fui para o banquinho de parto. O Gato arrancou a sua blusa e me abraçou por trás. Deu-me seu apoio, sua força, seu amor, e juntos permitimos ao nosso sonho vir ao mundo.
O período expulsivo
Manu coroou. Senti a sua cabecinha e vi refletido no espelho a imagem do desabrochar de uma flor. Eu queria ela no meu colo, no meu peito. Mais uma contratação recheada de uma mega força e lá estava a cabecinha para fora. Enlouqueci, queria arrancá-la de qualquer jeito. Na próxima contratação urrei e delirando me imaginei como uma égua e coloquei toda a minha força vital naquele estímulo.
Então Manu brotou. Brotou e veio para os meus braços, para o meu peito. Ela toda sedenta de amor e calor e eu toda repleta de luz. Abracei-a, abraçamos nós três, nossa família, nosso encontro!
Sinto-me vitoriosa, guerreira e plena. Ao permitir o nascimento da minha filha de forma natural permiti o meu próprio renascimento. Nasceu uma nova Marcela. Não só a Marcela mãe da Manu, mas uma nova consciência da minha capacidade, aceitação, humildade e força.
Manu nasceu sendo respeitada, porque acreditamos na sua capacidade de nascer e na sua força. Sim. Desde o seu primeiro segundo de vida a respeitamos integralmente. Não tive medo de cuidar de uma recém-nascida, porque meus olhos nunca a enxergaram como um ser indefeso, frágil e desprotegido. Manu é guerreira, parceira. Nascemos juntas e por isto juntas criaremos nossos laços e nossas histórias.