Samara e Laila: Dançando para conseguir um parto normal depois de uma cesariana

Samara e Laila: Dançando para conseguir um parto normal depois de uma cesariana

Depois de uma gestação maravilhosa, um parto passivo (por meio de uma cesariana desnecessária) e uma filha amada e saudável, ficou, apesar das alegrias e aventuras da primeira maternidade, uma sensação estranha, dessas que a gente nem conta para ninguém, acha que é cisma… “por que — se o bebê e a mãe estão saudáveis– devemos reclamar”?

Três anos se passaram, as informações foram chegando, fomos nos empoderando (eu e o papai) e resolvemos ter mais um filho. Que alegria!

Era muita expectativa. Fiquei ansiosa desde o dia do “resolvemos” porque para mim, a partir do momento que eu decido ter um filho, já fico pensando no nome, no parto, na carinha e até na festa de quinze anos.

Tive que segurar a ansiedade porque foram cinco meses até realmente aparecerem as duas listrinhas super desejadas no teste de gravidez. A partir daí foi uma explosão de alegria: contamos para todo mundo. A irmã já estava escolhendo nome, eu pensando no quartinho e o papai todo orgulhoso. Recebemos mensagens de gratificações da família inteira, até do neto bastardo do bisavô.

Foi então que, num domingo, por volta de cinco horas da manhã acordei com um sangramento intenso. Fui para o hospital e lá tive a triste notícia de que havíamos perdido o filho tão sonhado. Vivi momentos de luto e tristeza. Como dói perder um filho, mesmo que não tenha nascido!

Um mês e meio depois eu ainda não havia menstruado. Notei uma linha escura na minha barriga e associei aos hormônios da gestação perdida. Tocamos a vida sem conseguir falar sobre o assunto e com medo de tentar novamente. Se passou mais um mês e nada da menstruação descer. A linha da barriga ficou ainda mais forte.

Sem coragem de contar a ninguém fui a farmácia e comprei um teste. Ao fazê-lo, lá estavam duas linhas bem fortes e cor de rosa me dizendo que novamente estava grávida. Senti medo, alegria e ansiedade.

Decidimos agir diferente da gestação anterior. Fomos comedidos, não espalhando as boas novas. Procurei imediatamente a Dra. Quésia, em quem eu já tinha muita confiança, e demos início ao pré-natal.

Logo soubemos que viria uma menina e aos poucos o medo foi se dissipando e dando espaço à alegria. Fomos frequentando os cursos preparatórios e entendo melhor a fisiologia do parto normal, a barriga foi crescendo e fui tendo certeza de que eu e a minha bebê seríamos as protagonistas daquele  parto.

Com quarenta semanas a minha barriga ao invés de crescer diminuiu um pouco e lá voltou aquele medo de algo sair errado. Mas sempre assistidos e orientados, seguimos firmes no propósito de um nascimento o mais fisiológico possível. Tomei para mim a certeza de que precisava renascer como mulher, capaz de gestar e parir o filho a mim concedido.

Com quarenta e uma semanas fizemos um exame de ultrassom e lá ouvimos do médico que éramos loucos, que meu colo estava fechado e que eu nunca teria um parto normal. Fui direto para uma consulta com a Dra. Quésia aos prantos e ela me acalmou, dizendo que já viu isso acontecer diversas vezes e que iria fazer um descolamento de membranas para ajudar no início do trabalho do parto normal.

Quando me deitei para que fosse realizado o descolamento de membranas senti um líquido morno descendo por entre as pernas: minha bolsa havia se rompido. Era o sinal de que minha filha iria chegar!

Depois de averiguado o bem estar do bebê fui para casa aguardar o trabalho de parto normal espontâneo. Caso isto não acontecesse, em vinte e quatro horas, pensaríamos em alternativas. Mas nem por um segundo me passou pela cabeça que seriam necessárias alternativas: eu tinha certeza que dali há poucas horas minha filha estaria em meus braços.

Antes de chegar em casa passamos para comprar absorventes. Lá mesmo comecei a  sentir contrações, para o espanto de todos os vendedores e clientes. Estava parecendo aqueles filmes em que a mulher diz que está parindo e o marido fica desesperado, deixando todo mundo com cara de quem viu fantasma.

Uma enfermeira obstétrica, a Odete, foi enviada à minha casa para me acompanhar, já que eu estava com a bolsa rota. Mas além de enfermeira ela era uma fada: fazia uma massagem dos deuses que aliviava as contrações,  que neste momento vinham cada vez mais fortes.

Tudo fluía lindamente até que comecei a receber mensagens da família perguntando do parto. Aí tudo parou. Eu não queria que eles soubessem ainda, eu queria esse momento só nosso, íntimo, quase um segredo. Então as contrações cessaram.

Decidi descansar um pouco e relaxar para que o trabalho de parto normal retornasse. Como estava demorando, Odete sugeriu fazer acupuntura para estimular.

Foi espetar uma agulha no meu pé e pronto! Comecei a sentir uma contração atrás da outra. Parecia que o céu se abria e um chicote de raios batia na minha lombar, tentando me partir ao meio.

A partir daí, deixei de ser. Só sentia. Sentia que minha filha ia nascer e que meu corpo estava se abrindo. Se doía? Sim, doía. Mas eu não tinha medo. Me sentia como um corpo que buscava desesperadamente por um orgasmo ou uma redenção.

Entrei no chuveiro quente junto com a Odete que, toda molhada me massageava. Então resolvi que era hora de ir pro hospital. Fomos todos: eu, marido, Odete, minha mãe e a Dra. Quésia, que pegamos no caminho (moramos no mesmo bairro).

Já eram quase duas da manhã. No carro eu só gritava por anestesia (coitado dos ouvidos de todos). Chegando no hospital nem quis esperar o elevador, já fui subindo as escadas,  para estimular a dilatação. Apesar de minha mãe ter conseguido que eu me acalmasse um pouco solicitei e recebi a tão “gritada” anestesia.

Nossa que alívio! Depois da analgesia, mais tranquila, coloquei nossa playlist  de parto, que preparamos e escutamos muitas vezes na gravidez, me maquiei, arrumei o cabelo e acendi velas.

Cheguei ao hospital com nove centímetros e depois da analgesia as contrações sumiram novamente. O último centímetro que faltava estava demorando a chegar. Dra. Quésia conversou comigo e disse que colocaria só um pouquinho de ocitocina no soro para estimular o retorno das contrações  (eu sabia que não poderia utilizar altas doses de ocitocina por ter uma cicatriz de cesariana prévia no útero). Ela também disse que eu precisaria me conectar comigo e com meu parto. Afinal, eu procurava um parto normal.

Ocitocina é o hormônio do parto. Naturalmente produzido pela mulher, é responsável por desencadear as contrações uterinas e a abertura do colo do útero. Entretanto, em alguns partos é necessário a administração deste hormônio por via venosa, principalmente em casos em que as contrações são inibidas pela uso de medicamentos anestésicos.

Neste momento minha doula, a Bel (outra fada), me pegou pelas mãos e começamos a dançar. Enquanto dançava me entreguei totalmente. Fui me conectando e dançando  até que senti algo pesando entre as pernas: era minha filha chegando!

Todos se prepararam e eu sentei no banquinho de parto. Foram apenas três forças  ela nasceu! Saudável, linda, esperada, desejada, sonhada, como tinha que ser.

No momento do nascimento minha mãe ficou na minha frente, ao lado da Dra. Quésia e assistiu a chegada da neta de forma natural, através de um lindo parto normal. Meu marido me abraçou por trás, me apoiando e me dando força.

Ninguém interviu. Eu peguei ela nos braços depois de ser desembolada de não sei quantas voltas no cordão umbilical e lá ficamos: juntas, serenas e em paz.

Sou só gratidão! Ela nasceu e eu renasci  como mãe e mulher capaz de dar à luz ao maior presente que a vida me deu.

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