Meu primeiro filho, Vinícius, nasceu em uma cesariana intraparto, depois de uma indução às quarenta e uma semanas. Depois de chegar à dilatação total e passar 1 hora e 30 minutos em período expulsivo a frequência cardíaca dele caiu e fomos para o bloco cirúrgico. Ele nasceu bem, eu não tive maiores problemas com a recuperação da cesariana.
Cesariana intraparto é aquela que acontece depois que a mulher entra em trabalho de parto. É diferente da cesariana eletiva, que é realizada com hora marcada, antes do início do trabalho de parto.
Mas ficou a pergunta: e se? E se eu tivesse recebido ajuda para superar a dor sem analgesia (que recebi quando ainda estava com quatro centímetros de dilatação? E se eu tivesse ficado livre para me movimentar? E se eu tivesse escolhido a posição do expulsivo, em vez de ser colocada numa cama, presa a um soro com ocitocina artificial?
O tempo passou e percebi que precisava fazer o luto daquele parto que não tinha sido como eu esperava. Consegui falar daquilo, comecei a ler mais sobre o assunto, entendi que talvez pudesse ser diferente. Engravidei de novo — de uma menina — e decidi que iria tentar de novo. Minha médica não via empecilho para eu tentar um parto natural.
Mas quando eu estava no meio da gravidez decidimos nos mudar de volta para Belo Horizonte. Chegaríamos lá com trinta semanas e eu precisava encontrar um obstetra que me aceitasse. O critério essencial era que ele se dispusesse a fazer um VBAC com convicção.
Chegamos a uma obstetra bem indicada mas que já começou dizendo que o risco de rotura uterina seria maior em quem tinha cesariana prévia. Daquilo eu já sabia. Ela me examinou, disse que eu tinha um tipo de bacia que não era favorável ao parto natural e por isso é que eu não tinha conseguido parir meu primeiro filho. Por fim disse que não esperaria mais do que quarenta semanas e realizaria outra cesariana.
Saí de lá e resolvi procurar alternativas. Consegui outra indicação, a Dra. Quésia. Me disseram que se eu estivesse mesmo decidida a tentar parto natural seria a melhor opção em Belo Horizonte. Eu já estava com trinta e duas semanas então telefonei e marquei uma consulta.
Recebi um atendimento completamente diferente. Ela me disse que daria sim para ter parto natural depois de uma cesariana. Disse que o ideal seria tentar um parto natural com menos intervenções. E que só seria possível saber se o bebê iria ou não passar pela pelve durante o trabalho de parto, que não adiantava examinar antes.
A partir daí começamos a fazer o acompanhamento com Dra. Quésia. A gravidez correu lindamente sem nenhuma intercorrência. Ela me avisou que pelo meu histórico (eu nasci com quase quarenta e uma semanas e meu primeiro filho tinha chegado a 41 semanas sem trabalho de parto) era provável que a gravidez passasse de 40 semanas e que isto não era problema algum.
Conversamos com a Lena — que havíamos escolhido como doula — e ela recomendou nem preocupar com mala de maternidade: “Nada disso — Lena disse — as coisas se resolvem! Arrumar as malas aumenta demais a ansiedade”.
Fiz fisioterapia para o assoalho pélvico, fizemos curso de parto natural e procuramos nos preparar. Com trinta e oito semanas o colo do útero ainda estava posterior, fechado e sem sinal de dilatação. Então fomos tocando a vida como quem ainda teria mais duas ou três semanas pela frente, marcando compromisso para o domingo em que faríamos 39 semanas e para toda a semana seguinte.
O final de semana foi ótimo. Encontramos uma amiga que tinha vindo de Porto Alegre e com outros vários amigos. Almoçamos na casa da minha avó no domingo, levei Vinícius para andar de bicicleta e terminamos o dia comendo empanadas na pizzaria. Eu estava me sentindo super bem disposta e alegre, empurrando o barrigão mundo afora.
Na madrugada de domingo para segunda Vinícius acordou agitado. Fui no quarto mas ele não conseguia dormir. Percebi que ficar deitada no chão era incômodo, alguma coisa estava diferente. Um pouco de dor, uma cólica leve, contrações de treinamento um pouco mais frequentes. Mesmo assim não me animei, a experiência da primeira gravidez tinha me ensinado.
Ricardo (meu esposo) foi ficar com ele. Em dado momento ele disse que queria “o papai, a mamãe e a irmãzinha”. Era um sinal de que a irmãzinha ia chegar.
Às seis e meia da manhã acordei com uma contração dolorosa. Mudei de posição na cama, revirei e tentei relaxar para dormir de novo. Veio outra contração e eu já não conseguia pensar em dormir. Fiquei quieta, esperando. Veio mais outra. Doía aquela dor típica, que começa atrás e vem para frente, como uma cólica menstrual bem forte. Toda a barriga ficava dura. Eu sabia, não era contração de treinamento.
Comecei a monitorar as contrações. Estavam durando quarenta segundos, e embora ainda irregulares vinham com intervalo de 6 minutos. Não demorou muito e as contrações ficaram mais longas, regulares e frequentes. Achei que era hora de avisar à equipe de parto natural – Quésia, Lena e Karine, a enfermeira obstetra – que tinha gente querendo nascer em plena segunda-feira no horário comercial.
Karine pediu para avisar quando as contrações ficassem mais frequentes para que ela fosse até a minha casa me examinar. O plano era ficar em casa e só seguir para o hospital com seis centímetros de dilatação.
Achei que teria algumas horas. Nada estava pronto: nada. Tínhamos certeza que ainda ia demorar. Eu não tinha mala de maternidade arrumada, nem a do bebê. As roupinhas estavam todas limpas e guardadas mas nada estava separado. Não tinha enfeite de porta nem lembrancinha. O conselho da Lena me ajudou para diminuir a ansiedade, mas quando a Karine chegou e descobri que já estava com quatro centímetros de dilatação não tive cabeça pra arrumar a mala.
Ricardo buscou o TENS para ajudar com a dor, minha mãe chegou e ajudou a resolver a parte prática (eu ia ter camisola, a bebê ia ter roupinha), meus sogros vieram buscar Vinícius. Em mais uma hora a dilatação chegou a 6 cm e era hora de sair – eram 10h30 da manhã, só quatro horas desde que tinha sentido as primeiras contrações. Ela estava vindo, e era com tudo.
O TENS é um aparelho que aplica um estímulo elétrico transcutâneo através de eletrodos aplicados sobre a pele. Quando acionado emite uma corrente elétrica que excitar as fibras nervosas e provoca alívio da dor. Pode ser utilizado para vários tipos de dores e desconfortos e para muitas mulheres é extremamente efetivo durante o trabalho de parto.
Quando chegamos ao hospital descobri que a Lena estava em outro parto e que quem iria me acompanhar era a Bel: uma doula doce, de voz calma e um jeito bem tranquilo. Gostei dela na hora e confiei.
Passei as horas seguintes numa suíte de parto natural, num lugar que mais parecia um quarto de hotel que um hospital. Tinha luz baixa, música ambiente (pelo menos a playlist do parto eu tinha preparado na semana anterior), chuveiro, bola de pilates, massagem e um colchão no chão.
Naquela suite as contrações foram ficando cada vez mais fortes, cada vez mais longas, cada vez mais frequentes. Minha filha estava ótima. Sua frequência cardíaca não caía nem no auge da contração. Foi neste momento que decidimos: o nome dela seria Teresa: um nome forte para uma menina que já vinha mostrando o que queria.
A dilatação foi evoluindo até chegar na fase de transição. Os oito centímetros custaram a passar, as contrações já não tinham intervalo. Pedi analgesia. Bel me ajudou a mudar de posição, Ricardo fazia massagem, minha mãe me lembrava que faltava pouco e nisso o tempo foi passando.
A fase de transição é o momento entre o fim da fase de dilatação e o início da fase de expulsão do trabalho de parto. É o momento em que ocorre uma dilatação rápida do colo do útero, associada a uma descida do bebê na pelve. Costuma ser o momento mais doloroso e intenso para a mulher. É um momento em que a maioria das mulheres tem vontade de desistir, de pedir analgesia, de pedir cesariana.
Lembro que em dado momento pedi para deitar pois me faltavam reunindo forças. Mas logo fiquei em pé e a dilatação voltou a evoluir. Eu estava completamente fora do mundo. Quando cheguei aos dez centímetros comecei a sentir os puxos e pedi para ir para a banqueta.
Puxos são as sensações que a mulher sente no momento de nascimento do bebê. São como ondas intensas que pressionam para baixo e empurram o bebê para baixo. Ela sente uma vontade incontrolável de empurrar, e involuntariamente faz força em direção ao canal de parto para que o nascimento ocorra.
No começo eu tinha medo de fazer força e ter alguma laceração no períneo. A vontade de empurrar vinha e eu travava. Karine me tranquilizou: “Não precisar ter medo. Se der vontade de fazer força, faça! Siga sua contração.”
Laceração é o “corte” que acontece naturalmente no momento do nascimento do bebê. Períneo é o conjunto de tecidos localizados entre a vagina e o ânus. Existem maneiras de proteger o períneo para que ocorra o mínimo de lacerações no momento do nascimento. Entretanto, mesmo com proteção lacerações são comuns no parto natural.
Teresa foi descendo no canal de parto e em dado momento me avisaram que já tinha passado da parte óssea. Respirei fundo e celebrei: o diagnóstico de “bacia desfavorável” estava afastado, Teresa ia nascer!
Depois de mais algumas contrações e mais um pouco de força coloquei a mão e senti a cabecinha e o cabelinho dela. E então me pediram para parar de fazer força.
Ela nasceu na contração seguinte, às dezesseis horas e vinte minutos de uma segunda-feira. Abriu nossa semana com um choro forte que encheu a sala. Veio direto para os meus braços e mamou logo que chegou no peito, como se já tivesse feito aquilo antes. Aninhou no colo e dormiu. Quando o cordão parou de pulsar, Ricardo fez o corte. Subimos para o quarto: eu na maca e ela agarrada no peito. Subiram conosco no elevador duas senhoras e uma delas se espantou: “Gente, o bebê nasceu agora e já está mamando? Que lindo! Não sabia que podia.”
Pode, sim! Pode nascer de parto natural depois de cesariana. Pode parto natural, sem episiotomia e sem laceração! Pode vir direto para o colo da mãe! Pode mamar! Para trazer Teresa para mim eu busquei força onde pensei que já não tivesse e descobri que podia, sim. “Bem-vinda, meu amor, minha Teresa! Tem lugar para você nas nossas vidas! Vem virar tudo de cabeça pra baixo de novo que é assim que a gente gosta!”