Eliúde e Pedro: Renascimento em parto após uma perda fetal

Eliúde e Pedro: Renascimento em parto após uma perda fetal

Tenho aprendido e experimentado que viver plenamente é perder o controle. É meu mantra dos últimos tempos. Não temos controle sobre a maioria das coisas que nos acontece.

Existe o desejar, o sonhar, o planejar e o preparar-se. Mas a verdade é que não sabemos sobre o dia de amanhã, e  podemos ser surpreendidos tanto pelo inesperado como pelo desejado.

Sim. Porque não temos controle sobre o futuro, até mesmo o que queremos que aconteça nos surpreende. E o que fazemos com isso? Nos entregamos. Lutar contra algo inevitável só nos traz mais dor.  Estou falando de vida, estou falando de maternidade, estou falando de parto.

Eu tive uma gestação tranquila, bem além das minhas expectativas. Acho que foi um presente que Deus quis me dar, após passarmos pela tempestade da perda do nosso filho João, com 38 semanas de gestação. No meio de um universo de lembranças e experiências, gestar o Pedro foi uma realidade completamente nova, e eu pude curtir muito a gravidez.

Claro que, mesmo tendo vivenciado o luto de forma saudável e tendo decidido viver a nova gravidez de uma maneira positiva, alguns medos insistiram em passear pela minha mente, e a reta final da gravidez foi, inevitavelmente, um momento de maior luta entre o racional e o emocional.

Quanto mais se aproximavam as 38 semanas, mais difícil era manter a confiança, Meu desejo e de meu marido era que o parto fosse induzido, e até havia uma certa indicação para tanto. Mas dentro de mim havia um desejo maior de que tudo fosse espontâneo, e eu orava sempre a Deus pedindo isso: que a natureza vencesse o nosso medo.

E foi assim que aconteceu.

Numa sexta-feira, dia oito de junho, com 36 semanas e 3 dias, deixei minhas coisas no trabalho em ordem. A previsão era de entrar de licença somente no dia 18, mas senti que não deveria deixar para a última hora, então deixei tudo preparado.

Saí do trabalho e fui com meu marido realizar a ultrassonografia que estava marcada. Para nós  era só mais uma chance de ver o nosso bebê e confirmar o que eu já sentia

todos os dias com seus movimentos intensos em minhas barriga: que estava tudo bem.

Realmente estava tudo bem, mas o ritmo de crescimento do Pedro havia diminuído, e o percentil baixou um pouco. Pronto. Meu mundo novamente parecia que começava a desmoronar. Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo, e o medo de perder o Pedro voltou a rondar a minha mente.

* Algumas gravidezes cursam com risco aumentado de alteração no crescimento do bebê e por isto o crescimento do bebê é acompanhado pela ultrassonografia através da avaliação do seu peso. Existem tabelas de normalidade de peso fetal de acordo com a idade da gestação, semana a semana. O peso fetal é comparado com a média dos pesos para fetos daquela idade gestacional e o resultado é apresentado de acordo com os percentis.

Conversamos com a Dra. Quésia naquele dia e ficou decidido que eu faria acompanhamento através de cardiotocografia todos os dias e, caso necessário, seria feita a indução do parto na terça-feira, quando completaria 37 semanas.

* O exame de  cardiotocografia é uma maneira de avaliar o bem estar fetal. É realizado para acompanhamento de gestações de alto risco ou durante o trabalho de parto, quando existe indicação, principalmente em partos de risco.

Aquilo me acalmou e  fiquei mais tranquila com a idéia de que não mais precisaria esperar tanto tempo para ter meu filho em meus braços. Tranquilos saímos para

comer à noite e eu aproveitei para comprar umas pequenas coisas que estavam faltando.

No dia seguinte acordei com uma vontade louca e urgente de arrumar a casa. Eu sentia que deveria deixar tudo em ordem e passei o dia inteiro preparando o ninho para a chegada do novo morador. Também terminei de arrumar a mala da maternidade. Consegui deixar

tudo prontinho para uma possível saída de urgência. À noite, nos encontramos com a enfermeira obstetra Adrinez para realizar a cardiotocografia. Ela nos recebeu muito bem e nos deixou super tranquilos. O exame confirmou que estava tudo bem com o bebê.

Eu quis que fosse feito um exame de toque que mostrou que eu estava com três centímetros de dilatação. Uau! Aquela notícia me deixou muito feliz e bem mais calma. Era como se algo que só existia na minha mente começasse a se materializar e se tornar real.

Mesmo assim, eu imaginava que o Pedro ainda demoraria alguns dias para nascer. Falei com meu marido que não iria trabalhar na segunda, que já entraria de licença, para poder descansar. Tolinha… Mal sabia o que me aguardava…

Fomos deitar por volta de meia noite, mas eu não consegui dormir. Estava sentindo

cólicas e dores nas costas, ou seja: contrações. Já vinha sentindo isso a uns dois dias, mas daquela vez as contrações não paravam. Elas se tornaram constantes e cada vez mais intensas.

Senti algo descendo e vi que o tampão mucoso havia saído. Com isso, as contrações ficaram mais fortes e menos intervaladas. Às quatro da manhã  decidi acordar meu marido.

Me lembrei das contrações do parto anterior e tive  certeza de que o Pedro estava vindo. Entrei em contato com a enfermeira obstetra Karine e combinamos que ela iria até minha casa. Mas as contrações se intensificaram muito rapidamente.

Então me lembrei de todas as recomendações da Dra. Quésia (meu primeiro parto havia sido muito rápido) e pedi imediatamente a meu marido que ligasse para Karine para irmos direto para a maternidade.

Liguei para minha mãe e minha irmã e disse com muita paz: “Estou indo para a maternidade: Pedro está nascendo”. Chegamos na maternidade por volta das cinco horas. A doula Bel já nos esperava na porta, juntamente com a fotógrafa Paula. No caminho para o quarto, fazíamos parada a cada contração e eu contava com o conforto e a massagem da Bel para aliviar a dor.

Na suíte de parto, encontrei a Karine, a Dra. Quésia e a Andressa, que iria filmar o parto. Pronto. Estavam todos lá, tudo estava preparado.

Bem como eu sonhei. Mas eu sequer conseguia pensar muito sobre o que estava acontecendo ou o que poderia acontecer. Eu apenas estava vivendo. E viver é muito melhor que pensar.

Só que algo aconteceu: as contrações pararam. Elas simplesmente sumiram. E eu pensei comigo: “meu Deus, eu chamei esse exército de gente… e se for alarme falso?”

Mas eu havia me esquecido que a ocitocina é um hormônio tímido. E enquanto eu descansava, sentada na bola de pilates, decidindo se queria música ou não, a equipe toda saiu do quarto. Ficamos só eu e meu marido, meio bobos e anestesiados com o momento. Foram poucos minutos de tranquilidade. Então, de repente, as contrações voltaram.

*A ocitocina é o hormônio do parto, responsável por estimular as contrações do útero e fazer com que ele se dilate — abra, para o bebê nascer. É produzido em uma área muito primitiva do cérebro: o hipotálamo, juntamente com outros hormônios. Sua produção é extremamente influenciada pelo medo e pode ser bloqueada quando há excesso de estímulos externos, como luz, sons e quando há processos racionais acontecendo no cérebro. Por isto é recomendado que durante o trabalho de parto a mulher tenha privacidade e poucos estímulos sensoriais e cerebrais: para que a produção de ocitocina não seja prejudicada.

E vieram cada vez mais fortes e mais frequentes. Perdi o controle e decidi me entregar. Comecei a gritar (tinha aprendido que vocalizar era bom) e também porque realmente doía, mas talvez porque minha alma gritava.

Entrei na partolândia. Pedi ao meu marido que chamasse a equipe de volta e comecei a pedir anestesia. Eu estava prevendo mais algumas horas de trabalho de parto e sentia que não aguentaria uma dor maior que aquela por muito tempo.

Eu sentia calor e suava muito. Quis comer. Comi e depois vomitei. Paula me deu um

picolé de limão e no intervalo das contrações aquele picolé ia me aliviando. Dra. Quésia colocou um pano úmido na minha testa, Bel trouxe uma essência refrescante para eu cheirar e alguém me abanava com um leque.

Me sentei na banqueta de parto sustentada por meu marido e segurando nas mãos da Dra. Quésia e da Bel. Quando a contração vinha eu queria lutar contra, mas tinha que me entregar. Bel me lembrava de respirar eu pedia anestesia.

* Banqueta de parto é um assento de plástico criado especialmente para facilitar o parto de cócoras, muito utilizado para as mulheres que se sentem confortáveis nesta posição no momento do nascimento do bebê.

Em um certo momento a Dra. Quésia me disse: “Eliúde, o Pedro já está nascendo, ele está vindo!” Eu não conseguia acreditar:  “Não, ainda faltam mais umas cinco horas de

trabalho de parto! Vocês estão me enrolando! Eu quero anestesia, não aguento mais!”

* A anestesia para o parto normal na verdade é chamada de analgesia. Isto porque, para o parto normal não é realizada uma anestesia, já que esta bloqueia todas as fibras nervosas: sensitivas (de sensação e dor) e motoras. Para o parto normal é realizada analgesia, que bloqueia somente as fibras sensitivas, o que permite que a mulher se movimente e tenha controle dos seus músculos pélvicos e abdominais para empurrar o bebê no canal de part na hora do nascimento.

Então Karine falou: “Ele já está coroando, quer colocar a mão?” Eu não quis. Fiquei com medo de colocar a mão e ser mentira. Então Dra. Quésia se aproximou, segurou minhas mãos, olhou nos meus olhos e disse: “Eliúde, o Pedro está nascendo, você dá conta, você vai conseguir”.

* O bebê está “coroando” quando parte de sua cabecinha já passou pela saída da vagina e já é vista fora do corpo da mãe.

Aquele gesto foi importante pra mim. Acreditei naquelas palavras. Eu sabia que a Quésia se importava comigo e que sabia exatamente o que eu estava sentindo. Naquele momento me enchi de coragem e decidi me entregar às contrações finais. Gritando, chorando, mas me entreguei.

Depois daquele momento acho que foram apenas mais três ou 4 contrações. Não houve intervenção alguma. Eu apenas fiz o que meu corpo me pedia para fazer. Empurrei e senti o círculo de fogo.

E então senti o Pedro saindo de dentro mim, direto para os meus braços. Me lembro de chorar muito e segurá-lo em meus braços. Não acreditava que o tinha ali. Eu e meu marido nos olhávamos e chorávamos aliviados e agradecidos a Deus por aquele milagre. Era real.

Senti sua pele em contato direto com a minha e o amamentei em seguida. Domingo, dia dez de junho de 2018, às 07:09 horas, Pedro nasceu. E eu renasci.

Renascimento. A cada evento, uma nova pessoa em uma mesma vida. Renascimento não segue calendário. É ano novo sem ser janeiro. Renascer algumas vezes é ressuscitar. Outras vezes é rebrotar, reverdecer. É vida após a morte ou mais vida na vida. Renascer é olhar para trás com gratidão por quem fui e olhar para frente em paz por quem agora sou.

Nascer é pontual e finito. Renascer é constante. Ressuscito, reverdeço, rebroto, tantas vezes quanto necessário. Até que finalmente renasça para a eternidade, na eternidade. Prazer em me re-conhecer.

 

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