Parto e microbioma: qual a relação?

parto e microbioma

As bactérias, vírus e fungos úteis e prejudiciais que vivem dentro e fora de todos os ambientes, tanto vivos como não vivos, são o que a ciência define como microbioma. Sabe-se que o microbioma de um organismo influencia o desenvolvimento e a saúde de animais e plantas. Da mesma forma, o microbioma do solo e dos edifícios influencia os organismos que residem nesses ambientes não vivos.

É de conhecimento dos cientistas hoje em dia que os microrganismos do microbioma fornecem serviços como a síntese de vitaminas e degradação de alimentos. Outra função é a prevenção ao de ataques de patógenos. No entanto, nos últimos séculos de interações humano-microrganismos, mudanças nas formas de nascer e nas práticas médicas e condições de vida podem ter alterado a aquisição de nossas comunidades microbianas. Dessa forma, tem sido demonstrado que os microbiomas alterados estão relacionados com o aumento de alergias, asma, diabetes, doenças gastrointestinais e transtornos mentais, como depressão, ansiedade e autismo.

Humanos como ecossistemas para microrganismos

Para uma bactéria, seres humanos são um planeta composto de vários ecossistemas diferentes. Do “deserto” seco e intenso de raios ultravioleta da pele ao “lago” quente, úmido e rico em nutrientes da boca, bactérias específicas vivem em regiões diferentes em uma pessoa. Com isso, à medida que os ecossistemas do ambiente humano mudam durante o desenvolvimento, a gravidez ou com as mudanças nas dietas, pode haver mudanças no microbioma que habita o seu organismo.

Os animais se distribuem de forma diferente pelo mundo. Da mesma forma, os microrganismos se distribuem pelo nosso corpo.

A fonte do microbioma infantil

Os estudos têm demonstrado que o microbioma infantil é adquirido durante o nascimento e através dos primeiros alimentos e do ambiente em que a criança vive.

– Influência da forma de nascimento na transmissão do microbioma

De acordo com algumas pesquisas, o microbioma de bebês nascidos por parto normal representa mais de perto o microbioma da vagina e das fezes da mãe e é rico em bactérias benéficas. Em contraste, o microbioma dos bebês nascidos de cesariana planejada é mais semelhante ao da pele da mãe e rico em bactérias presentes no ambiente hospitalar.

Contato do bebê com o microbioma materno em um parto normal e em uma cesárea.

Devido à essas alterações relacionadas à via de parto, os bebês nascidos por meio de uma cesariana eletiva, sem que a mãe tenha entrado em trabalho de parto, possuem um microbioma diferente e são mais propensos a terem problemas de saúde. Entretanto, bebês que nasceram de cesarianas intraparto, quando a mãe entra em trabalho de parto, tiveram microbiomas semelhantes às crianças que nasceram de parto normal.

Por isso, acredita-se que o processo de parto, as alterações hormonais ou outras alterações fisiológicas, podem influenciar o microbioma. Além disso, algumas bactérias maternas já podem ser transmitidas com a rotura da bolsa aminiótica.

– Influência dos primeiros alimentos na transmissão do microbioma

Os primeiros alimentos são outra influência no microbioma infantil. O microbioma do leite materno é um conjunto único de bactérias, distinto dos microbiomas da pele humana, intestino, oral, vaginal e outros locais específicos do corpo. Com isso, o bebê amamentado está exposto a cerca de 1 e 10 milhões de bactérias do leite materno. Assim como outros componentes do leite produzido pela mãe, a comunidade bacteriana muda drasticamente entre o colostro (o primeiro leite que é produzido) e o leite maduro, sendo o colostro o mais diverso, com mais de 1.000 tipos diferentes de bactérias.

Transmissão de microrganismos do microbioma pela amamentação e através de fórmula.

Atualmente sabe-se também que bebês amamentados têm duas “mães”, sua mãe humana e sua microbiota do leite, bactérias protetoras no intestino do bebê que prosperam quando alimentadas com os açúcares do leite materno. Embora os oligossacarídeos (um tipo de açúcar) do leite humano (HMOs) sejam o terceiro componente mais abundante do leite materno, a criança não consegue digerir esses açúcares. Em vez disso, os HMOs são um prebiótico natural ou “alimento bacteriano”.

Bebês alimentados com fórmula têm um microbioma mais diverso do que bebês amamentados. A diversidade bacteriana intestinal é essencial para aumentar a capacidade dos adultos de digerir uma ampla variedade de alimentos. No entanto, a diversidade bacteriana pode ser prejudicial no estágio infantil, quando o sistema imunológico está se desenvolvendo e aprendendo a distinguir entre microrganismos que são amigos e aqueles que são inimigos. Os açúcares do leite materno são capazes de mediar e determinar as abundâncias de diferentes espécies bacterianas.

– Influência do ambiente uterino na transmissão do microbioma

Muitos outros fatores relacionados ao nascimento podem influenciar o microbioma infantil. Foi demonstrado que bebês de mães muito estressadas, seja na gestação ou no parto, tiveram aumento de sintomas gastrointestinais e reações alérgicas. Ademais, o uso de antibióticos durante a gravidez também pode alterar o microbioma do bebê e predispor à problemas de saúde durante a infância.

As intervenções no parto mudam o microbioma?

A influência de intervenções como anestesias epidurais, frequência alta de exames de toque vaginal e episiotomias também ainda estão sendo estudados. Em geral, qualquer procedimento que “esterilize” ou limpe a área vaginal e retal provavelmente diminuiria a transmissão da comunidade microbiana da mãe. Também tem sido discutida qual o papel do vérnix e como o retardo no primeiro banho do bebê podem alterar positivamente a formação da microbiota do recém-nascido.

Da bancada do laboratório à sala de parto

Antibióticos, parto cesáreo e outras intervenções são valiosos e salvam vidas para muitas mulheres e bebês; no entanto, como eles se tornaram mais comumente usados, vimos um aumento em muitas doenças e distúrbios de longo prazo.

Os humanos e todos os organismos são planetas com diversos ecossistemas. No sequenciamento do genoma humano, aprendemos que doenças raramente se correlacionam com genes humanos específicos. Dessa forma, é importante que demos cada vez mais importância aos estudos que busquem examinar as relações entre ser humano, microbioma e organismo. Assim, poderemos estabelecer ações que beneficiem os seres humanos em sua formação, crescimento e desenvolvimento.

Texto adaptado de The Healthy Birth: Dyad or Triad? Exploring Birth and the Microbiome

Assista a esse vídeo de um parto natural da Villa:

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